COMO O CINEMA DE ARTES MARCIAIS CONQUISTOU HOLLYWOOD (PORTUGUES)
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ARTES MARCIAIS NO OCIDENTE Houve um tempo, hoje longínquo, em que as salas de bairro independentes dos grandes circuitos de distribuição, verdadeiras naves antediluvianas, ao mesmo tempo majestosas e imundas, apresentavam dois filmes pelo preço de um, os quais eram filmes de séries B, produções de orçamento reduzido. Em certos casos elas haviam se especializado num gênero específico, em função dos entusiasmos do público, formando um mercado paralelo, proteiforme, rico em surpresas de todos os tipos. Houve o erotismo, os filmes retraçando episódios da antiguidade, os de terror, o faroeste ítalo espanhol e, do início dos anos 70 até meados dos 80, os filmes de artes marciais asiáticos, filmes de sabre ("wu xia pian") ou de kung-fu. A crítica demorou muito para se interessar a esses últimos e os designava então sob o vocábulo falacioso e desdenhoso de filmes-caratê, enquanto um público que fazia pouco caso dessas avaliações estéticas se precipitava regularmente para saborear as façanhas de estrelas asiáticas das quais ele ignorava até mesmo o nome, salvo algumas exceções notáveis. Hoje, o cinema de artes marciais é reconhecido pela sua importância histórica e as suas qualidades intrínsecas, tanto no plano artístico como no do entretenimento. Alguns universitários um pouco mais audaciosos do que os outros deles fizeram o terreno de uma nova forma de análise estética, construída em torno das figuras e da energia dos corpos em ação. Freqüentes e variadas reedições em DVD dos clássicos do gênero revezam-se para devolver-lhe uma atualidade perpétua. Mas, a idéia em si das artes marciais como prática e como filosofia, se é que se pode dizer isso delas, acabou se impondo. Este cinema transformou mundialmente as seqüências de combates sem armas a não ser o corpo, e a maneira como estas são objetos de uma estrita coreografia em obras que não pertencem ao gênero. Ele impregnou assim inúmeras produções de Hollywood. Como um cinema que foi criado longe de Hollywood conseguiu tornar-se universalmente popular? Um cinéfilo e cineasta, Christophe Gans, que realizou filmes tais como o "O Pacto dos Lobos" (2001) e "Terror em Silent Hill" (2006), faz parte daqueles que se apoderaram das figuras do gênero para transpô-las num outro contexto. Para ele, "Hollywood interessou-se forçosamente por um imenso público apreciador de cultura popular, de música, de séries B [daquilo que foi chamado na França de 'cinema bis'], de histórias em quadrinhos. Existe principalmente um forte vínculo entre o cinema de 'blaxploitation' [filmes com heróis negros destinados à comunidade negra americana] e o cinema de kung-fu. É o público das minorias, integradas ou não por imigrantes, do monde inteiro que se reconhece no cinema chinês de artes marciais e com ele se identifica, diferenciando-se com isso de uma maioria branca. Nisso, existe ao mesmo tempo uma revanche de uma cultura popular e uma recuperação desta última pela indústria, que o sufocará sem muito amor". Tudo aconteceu no espaço de poucos meses. A descoberta no Ocidente do cinema de kung-fu não se fez em função da audácia de distribuidores independentes (mesmo se este foi o caso de "Du sang chez les taoïstes" -Sangue entre os taoístas-), um dos primeiros filmes de sabre chineses a serem distribuídos em Paris, em 1971, por intermédio de uma pequena companhia. Em 1973, as filiais francesas de dois grandes estúdios de Hollywood se distinguem pelo seu faro: a Warner distribui na França "A Mão de Ferro de Shaolin", de Chung Chang-wa, enquanto a United Artists lança "A Raiva do Tigre", de Chang Cheh, dois modelos do gênero produzidos pela companhia Shaw Brothers, baseada em Hong-Kong. O sucesso que eles obtiveram engendrou a invasão irresistível dos telões das salas de bairro por produções asiáticas, majoritariamente de Hong-Kong, mesmo se no meio deles podiam ser encontrados filmes taiwaneses, japoneses, filipinos ou coreanos na verdadeira avalanche que se seguiria. O carateca japonês Sonny Chiba, menos conhecido na França do que nos Estados Unidos, faz um sucesso-monstro junto ao público negro americano. É impossível compreender esta popularidade se não evocarmos a figura lendária de Bruce Lee (1940-1973). Após ter sido um ator-criança nos estúdios de Hong-Kong, Bruce Lee partiu para se instalar nos Estados Unidos em 1957 com a esperança de seguir carreira no cinema. Ele ensina o Jeet Kune Do, uma variedade de kung-fu depurada da qual ele é o criador, a atores tais como Steve McQueen ou James Coburn. Ele aparece em alguns filmes ("Detetive Marlowe em Ação", de Paul Bogart, 1969), atua num papel de coadjuvante numa novela televisiva ("Besouro Verde") e fica aguardando um estrelato que não se concretiza. O sucesso do cinema de artes marciais dá aos dirigentes da Warner Television a idéia de criar uma série televisiva, "Kung-fu". Para encarnar o herói, os produtores preferem David Carradine a Bruce Lee. Este último retorna a Hong-Kong, onde ele contratado pelo produtor e realizador Raymond Chow para atuar em três filmes sucessivamente, "The Big Boss" ("O Dragão Chinês", 1971), "Fist of Fury" ("A Fúria de Dragão", 1971) e "Way of The Dragon" ("O Vôo do Dragão", 1972), que serão descobertos pelo público francês graças ao distribuidor René Chateau. Desta vez, o sucesso de bilheteria é irresistível e a glória segue na esteira. Bruce Lee torna-se um ícone. O seu gestual incrivelmente erótico combina harmonia, brutalidade e eficácia. A América exige o seu retorno. "Operação Dragão" (1973), produzido pela Warner, realizado par Robert Clouse, será o filme da consagração suprema, da integração por Hollywood do cinema de artes marciais. Uma estranha criação um pouco híbrida, na qual as convenções coreográficas do kung-fu se misturam com diversas peripécias novelescas que evocam os filmes de James Bond, "Operação Dragão" é uma síntese hábil: nele, o herói chinês (Bruce Lee) contracena com um carateca branco (John Saxon) e outro negro (a estrela do gênero "blaxploitation" Jim Kelly). A morte prematura de Lee, em 20 de julho de 1973, faz dele uma lenda. Na segunda parte dos anos 70 e durante os 80, enquanto a produção de filmes em Hong-Kong atinge seus auge, que se afirmam cineastas e coreógrafos tais como Chang Cheh ou Liu Chia Liang, que John Woo estréia nos telões, assiste-se nos Estados Unidos à revanche dos "branquelos": Chuck Norris (adversário de Bruce Lee em "A Fúria do Dragão"), Jean-Claude Van Damme e em seguida Steven Seagal, daqui para frente fazem reinar a ordem em produções que despontam como sucessivas tentativas de réplica, porém fraquinhas diante da força do cinema chinês. As invenções coreográficas das artes marciais vão permanecer, exportar-se em produções de ação bancadas por Hollywood onde, daqui para frente, ninguém imaginaria uma pancadaria que não seja estilizada. "Da mesma forma que não se pode mais filmar um carro da mesma maneira depois de "Mad Max", não se pode mais filmar cenas de briga como se fazia antes de Bruce Lee", afirma Christophe Gans. Diversos produtores tais como Joel Silver, um aficionado de filmes de artes marciais, impõem esta nova maneira de lutar. "Máquina Mortífera 2", com Mel Gibson, em 1988, se conclui com um brutal combate com socos e pontapés influenciado pelo cinema de artes marciais. Assim, não é surpresa ver o ator-cineasta americano contratar o ator Jet Li para "Máquina Mortífera 4". É então que se inicia a época das transferências e das criações híbridas. Os atores Jackie Chan ou Jet Li fazem filmes em Hollywood. A atriz Michelle Yeoh atua num dos papéis principais de um filme de James Bond, "Amanhã Nunca Morre", em 1997. A série dos "Matrix", dos irmãos Wachowski, uma mistura de ficção científica, histórias em quadrinhos, videogames e artes marciais, beneficia do auxílio do coreógrafo e cineasta Yuen Woo-ping. Na França, Christophe Gans introduz o kung-fu na França do século 18 com "O Pacto dos Lobos", no qual se destaca um personagem de índio encarnado por Mark Da Cascos, estrela de numerosas séries B de ação nos Estados Unidos. Daqui para frente, a imagem das artes marciais no cinema parece ter evoluído em diversas direções. Pode-se dizer que haveria algo parecido com um hipotético retorno a uma pureza original, o qual se traduz por obras "cartões-postais", objetos exóticos para turistas que não escondem sua vocação a uma difusão mundial. Entre estes, estão "O Tigre e O Dragão", de Ang Lee, um sucesso produzido em 2000 pela Columbia, ou os filmes de Zhang Yimou, tais como "Herói" (2002) ou "O Clã das Adagas Voadoras" (2004). Com "Kill Bill", em 2004, Quentin Tarantino, um grande aficionado de séries B asiáticas, presta sua homenagem a esse cinema, acrescentando vinhetas pop, descoladas da sua história e apresentadas dentro de uma preocupação ora de afeição, ora de irrisão, alternadamente. No momento em que o que restou de mais interessante no cinema de Hong-Kong, principalmente os filmes de Johnny To, parece optar por um realismo muito diferente das tendências do cinema de kung-fu da idade de ouro, a evolução dos efeitos especiais em Hollywood, daqui para frente, parece decretar o fim de um certo espírito das artes marciais no cinema. Será que houve mesmo uma pureza de origem do cinema de kung-fu que teria se perdido? Esta idéia é rejeitada muito acertadamente por Christophe Gans. "'A Raiva do Tigre' e 'A Mão de Ferro de Shaolin', dois títulos essenciais da idade de ouro, foram realizados por cineastas que haviam assistido aos filmes de faroeste italianos, dos quais eles copiavam muitas idéias", diz. Por sinal, todos se lembrarão que os primeiros faroestes de Sergio Leone eram abertamente influenciados pelos filmes de sabre de Akira Kurosawa. O qual confessava na sua época, sua admiração pelo cinema de John Ford. Eterna reciclagem. FC GROUP www.kungfugrupo.com" |
